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Marchionne comemora, de gravata, melhor momento da FCA

Data:4/6/2018

John Elkann, chairman da FCA, brinca ao oferecer sua gravata ao CEO Marchionne, que mais cedo usou o nó apertado no pescoço para simbolizar “seriedade” com o fim das dívidas: “Ganhamos o direito de sermos levados a sério”

Companhia zera dívidas que quase levaram à falência os grupos Fiat e Chrysler 

PEDRO KUTNEY | De Balocco (Itália)
 
Diante de público formado por analistas financeiros e jornalistas de uma centena de países, usando uma mal amarrada gravata – algo que quase nunca se viu em seu pescoço –, o CEO da Fiat Chrysler Aumomobiles (FCA) Sergio Marchionne usou uma frase de Oscar Wilde para descrever a inusitada cena protagonizada por ele: “Uma gravata bem apertada é o primeiro passo sério na vida”, teria dito o escritor irlandês. Segundo Marchionne, a indumentária simboliza a seriedade da companhia que “vive hoje o seu melhor momento” com as dívidas zeradas e pronta para o próximo plano de cinco anos que foi apresentado durante o Capital Markets Day na sexta-feira, 1º, no campo de provas das FCA em Balloco, na Itália. 

“Se pudermos aplicar a máxima [de Oscar Wilde] à FCA hoje, eu diria que nós definitivamente ganhamos o direito de sermos levados a sério... Com essa gravata bem apertada, eu espero fechar os livros no fim de junho com o caixa positivo”, adiantou Marchionne aos investidores.


O executivo lembrou que quando assumiu o comando do então Grupo Fiat, em 2004, ali na mesma Balloco fez sua primeira apresentação a analistas financeiros, que já esperavam pela falência da centenária companhia italiana afundada em dívidas. Mais tarde, em 2009, Marchionne recordou o ceticismo com que os mesmos analistas receberam o plano de recuperação de outra corporação automotiva em estado falimentar, a Chrysler, assumida pela Fiat ainda em concordata. “Muitos de vocês também classificaram como ‘muito ambicioso e irrealizável’ nossos planos quando anunciamos a criação da FCA, em 2014”, destacou. 

Para o festejado CEO, toda a desconfiança foi superada com a entrega dos resultados prometidos, que fizeram o valor de mercado da FCA dobrar desde 2015 enquanto a dívida foi consistentemente reduzida, mesmo passando por cenários de crises e incertezas. Mas o próprio Marchionne admitiu (mais tarde, falando com a imprensa) que nem ele acreditava em tamanha recuperação da empresa quando assumiu o posto de CEO. “Foi como comprar um bilhete de loteria. Não imaginava um futuro assim. Mas a cultura criada de disciplina e entrega de resultados salvou a corporação”, resumiu. 

FOCO EM DISCIPLINA FINANCEIRA E RENTABILIDADE


Ao fim de 2017, a FCA registrou em seu balanço anual dívida líquida de € 2,4 bilhões, faturamento líquido de € 111 bilhões e lucro líquido de € 3,8 bilhões. Para este ano, mesmo sem a Magneti Marelli (separada oficialmente do grupo), a projeção da companhia é de receitas totais de € 120 bilhões e ganho € 4,7 bilhões. 

No plano até 2022 revelado no Capital Markets Day, com mudanças no portfólio de produtos de todas as marcas do grupo em busca de mais rentabilidade, a expectativa é fechar o ano com € 7,5 bilhões a € 10 bilhões em caixa e mais que dobrar o Ebit (lucro antes de impostos e despesas financeiras), de € 6,6 bilhões e margem de 6,3% sobre as vendas em 2017 para € 13 bilhões a € 16 bilhões e margem de 9% a 11%. 

Graças ao foco em produtos mais lucrativos, segundo as projeções, a maior rentabilidade virá das Américas, nos países do Nafta (Estados Unidos, Canadá e México) e América Latina, incluindo o Brasil, onde as margens esperadas de Ebit são de 10% a 12%, enquanto na Ásia-Pacífico essa faixa porcentual de ganho sobre vendas cai para 8% a 10% e na região Emea (Europa, Oriente Médio e África) de 5% a 7%. A marca mais rentável do grupo é a Maserati, da qual espera-se Ebit de 15% sobre as receitas até 2022. 

Com a eficiência trazida pela manufatura digital, redução do número de plataformas das atuais 16 para 12 nos próximos cinco anos e maior volume de componentes iguais para número maior de veículos, a FCA espera até 2022 cortar € 10 bilhões em custos de produção e compras. 

“Vamos continuar com a disciplina financeira que introduzimos. Ficamos mais fortes. Aprendemos a viver com incertezas e estamos preparados para encarar qualquer desafio. Continuamos abertos a debater todas as alternativas e acreditamos em uma abordagem pragmática”, declarou Marchionne sobre as disrupções econômicas e tecnológicas que a indústria automobilística está enfrentando, ainda tateando saídas para continuar relevante. 

“Seguir as tendências automotivas sem sabedoria e por vias sem rentabilidade não é só ingênuo, mas também perigoso... [Com todas as disrupções] vamos seguir sendo obsessivamente atentos à alocação de capital e com invariável compromisso em entregar nossos objetivos financeiros”, prometeu Marchionne aos analistas.


NEM VENDA, NEM APOSENTADORIA


Marchionne desviou de perguntas sobre sua sucessão, esperada para janeiro do ano que vem, dizendo que este é um assunto a ser tratado mais tarde. Disse também que não vê nada de estranho em apresentar a analistas financeiros um plano de cinco anos que terá de ser tocado por outro CEO, seu sucessor. “Foi uma equipe que criou esse plano, eu sou irrelevante nesse processo de implementação do plano”, respondeu a um analista. 

Em seguida, encerrou a seção de perguntas com suas observações finais, destacando ter certeza que a companhia já aprendeu a seguir sem ele: “O que nos torna diferentes é que somos sobreviventes. As origens da FCA são de pessoas que enfrentaram as mais difíceis situações nos últimos 10 anos, com riscos de perder sua dignidade ou seus empregos... Não preciso deixar um roteiro ou instruções, porque seriam temporários. A FCA tem hoje uma cultura de líderes e empregados que nasceram das adversidades, que hoje operam sem partituras.” 

Pouco depois, para responder a perguntas de jornalistas já ao lado de John Elkann – bisneto do fundador da Fiat, Giovanni Agnelli, e hoje chairman da FCA –, Marchionne voltou a negar os rumores sobre a venda do grupo, como foi especulado no ano passado quando a chinesa Geely fez uma oferta não aceita. Também de acordo com especulações, por causa de uma possível aquisição o novo CEO não teria sido anunciado agora, para viabilizar o negócio futuro. “Desde 2004 não me lembro de quando esta empresa esteve tão bem. E o plano até 2022 que apresentamos hoje é muito bom, fará da FCA uma das melhores e mais cobiçadas empresas do setor automotivo global. Como acionista eu quero estar aqui para ver isso”, disse. 

Elkann completou o CEO na mesma linha: “Não houve atraso algum na sucessão. Nos últimos anos fortalecemos a companhia com o Marchionne e não estamos em posição de venda diante de um futuro tão promissor. Nos últimos 15 anos tivemos muitas chances de fazer isso, mas nunca quisemos vender. Nunca houve situação tão boa como agora. A FCA é o melhor patrimônio da Exxor (empresa controladora pertencente à família Agnelli)”, enfatizou. 

Ao que parece, ao menos até o fim deste ano, enquanto as disrupções não mudam para sempre a indústria automotiva, mercado e imprensa continuarão a ter FCA e Marchionne juntos para provar que, mesmo sem gravatas bem apertadas, é possível superar adversidades com a combinação de estratégias bem montadas e alguma sorte. Marchionne apostou alto naquele bilhete em 2004 e, até agora, ganhou.



Fonte: www.automotivebusiness.com.br

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