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Falta de clareza do governo preocupa setor industrial

Data:12/4/2019

Fistarol: “Em geral, o cenário do agronegócio é positivo, mas está rodeado por um nível altíssimo de insegurança e volatilidade”

Para Vilmar Fistarol, presidente da CNH Industrial na América do Sul, insegurança e volatilidade trazem riscos à cadeia 

SUELI REIS, AB | De Belo Horizonte (MG)
 
Às vésperas da maior feira dedicada ao agronegócio da América Latina, a Agrishow, que ocorre na última semana de abril e primeira de maio em Ribeirão Preto (SP), ainda não está claro se haverá recursos para financiar as vendas esperadas para o evento. Isso porque os recursos de programas de fomento como Moderfota ou mesmo o Pronaf já esgotaram. Além disso, o Plano Safra 2018-2019, que deveria ainda sustentar os negócios do evento e as vendas até meados do ano, corre o risco de não ter mais dinheiro em caixa. A preocupação vem do presidente da CNH Industrial, Vilmar Fistarol, ao avaliar o cenário atual no Brasil nos segmentos em que a companhia atua, com a fabricação de máquinas agrícolas, máquinas de construção, caminhões, ônibus e motores para todos eles.

“Começando pelo agronegócio: por um lado, a avaliação é positiva, quando falamos de produtividade e preços de commodities, com um cenário de crescimento bastante importante no Brasil e também na Argentina. Porém, está rodeado por um nível altíssimo de insegurança e volatilidade. E é esse o risco que nós estamos incorrendo neste instante”, comenta Fistarol.

Há grande preocupação do setor produtor em geral sobre a disponibilidade de recursos para o financiamento de bens de capital para a próxima safra. “Estamos nas vésperas do Plano Safra 2018-2019; a ministra da Agricultura [Tereza Cristina] diz que ainda há recursos para honrar o plano até o fim, mas nós já sabemos que não tem. Existe aí uma desinformação que não é positiva: precisa clareza de ideias, porque os empresários querem investir, mas a insegurança é muito grande”, relata.

Para o executivo, a falta de clareza do governo causa dúvidas no produtor: “Essa mensagem está bem complexa. Entendo que é o início do mandato, mas é um ponto que precisa ser resolvido porque o produtor não pode parar, a indústria não pode parar de investir. Há investimentos importantes a fazer, mas as empresas ficam no impasse da espera. O setor industrial até pode dizer que vai esperar para ver o que acontece, mas o produtor agrícola não pode esperar.”

AS CONSEQUÊNCIAS

Ameaçar o setor agrícola é um risco muito grande para o Brasil. Em sua avaliação, Fistarol defende que não resolver essa questão urgente é afetar negativamente a competitividade do País.

“As janelas da agricultura são sempre mais curtas: se o produtor perde essa janela, significa menos produtividade, menos volume de produção, menos competitividade. O agro é um cenário positivo em geral? Sim, mas é muito cheio de nuvens, de áreas cinzentas”, alerta.

O executivo entende que a expectativa que havia no ano passado para o novo governo era mais positiva, embora ele defenda que as empresas e os investidores ainda se mantêm otimistas com o futuro do País. “Há uma tentativa de achar uma saída, mas é certo que há esse momento de insegurança, o que não é bom para o setor. Se a saída for ‘não tem mais recurso do BNDES’, então que se diga claramente e se tem, para quais categorias se destinam etc.”

Ele conta que ainda em 2018, quando a indústria sentiu o mesmo temor, as empresas se uniram em suas associações e foram até Brasília para pedir que o então governo não interrompesse a cadeia. “Porque a pior coisa que você pode fazer na cadeia é a interrupção: você cria um hiato que depois não recupera.”

Segundo Fistarol, a tentativa de sensibilizar é para evitar indecisões no governo. Tal indecisão pode gerar uma demora no governo de 15 a 20 dias sobre qual decisão tomar, o que para o setor industrial de bens de capital ou mesmo para o produtor rural pode significar entre 60 a 90 dias sem operação, como já ocorreu anteriormente. “Essa questão do Plano Safra 2019-2020 estamos tratando desde o ano passado, porque precisa falar sobre isso antes de acontecer, mas a inércia é muito grande.”

Travar o setor agrícola pode acarretar impactos negativos não só no produtor rural, explica Fistarol: “A indústria de caminhões pesados nos últimos anos tem girado muito em torno do agronegócio. Se cria incertezas no agro, cria incertezas em toda a cadeia e todo o restante da máquina da economia”, aponta.

Outro setor que também vem sofrendo com indecisões governamentais é o da construção, do qual a CNH Industrial também participa, fornecendo máquinas e equipamentos, além de motores estacionários.

“O varejo vai um pouco melhor do que estava, mas com base em pequenas coisas, mas pequenas coisas não movem a economia do País. Se não tiver grandes projetos de infraestrutura que sejam estratégicos e que comecem a decolar, os investimentos na área de construção e maquinário não vai existir. As grandes empresas vão continuar tocando os negócios como fazem as pequenas e médias que tocam com investimentos breves, custos de manutenção elevados, riscos de trabalho e custos operacionais enormes.”

Ele garante que se nada for feito, o mercado dificilmente passará das 11 mil unidades vendidos em um ano. “Esse mercado deveria estar em 24 mil ou 25 mil unidades”, revela.

Para o executivo, qualquer índice de crescimento do PIB abaixo de 4% ou 3,5% não impacta no mercado. Ele defende que se as expectativas prometidas para o ano não se consolidarem até o segundo trimestre, pode-se considerar este um ano perdido. 

“É esse o temor da indústria em geral. Continua a expectativa de que as coisas decolem, mas a pergunta é: até quando vamos esperar.”



Fonte: http://www.automotivebusiness.com.br

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